segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Apagar da Vida



Pai nosso que estas no céu
Santificado seja o vosso nome
Venha a nós o vosso reino
Seja feita a tua vontade
Assim na terra como no céu

O pão...
...
Silencio... ...
... ... ...
Em meio a o nada, apenas nada me resta, silenciando o meu som.
... ... ... ...
E essa foi a ultima vez que ouvi a minha voz.
... ... ... ... ...

Rezando antes de dormir, falando com Deus, o sentir tampar meus ouvidos.
Pensei que tava apenas articulando palavras sem produzir som, porem me silencio, e juntando o máximo de ar nos meus pulmões, vou para a minha varanda soltando um grito...

... Um casal de namorados que estão passando no calçadão do outro lado da rua, olham em minha direção.
Seu Carlos, porteiro, perguntou-me passivamente se estava tudo bem, sei que essa foi a pergunta por que do segundo andar que eu estava consegui ler seus lábios vagarosos articularem essas palavras, porem deles não escutei som algum.

Sem responder entro em casa, sento no sofá e fico paralisada, igual o puto do som que para mim não se move mais.
Com os segundos se passando rápido no relógio de parede, percebo que o silencio com o tempo dá medo, insegurança, desespero, E nesse desespero me levanto do sofá e vou ate o telefone, ligando apressadamente para meu marido, porem ele não responde nada... E depois de um bom tempo tentando, ligando e religando, volto a si, volto ao meu silencio particular, ao meu tetraplégico som... Relembro que as merdas das minhas orelhas pararam, se fecharam pra conversas ao pé do ouvido.
Re-sento, e na minha inércia deito no sofá com o ouvido direito encostado na almofada, sinto o tempo passar rapidamente, silenciosamente, e agora num desespero contido deixo lagrimas caladas rolarem por minha face, caírem de lado, e pousarem no meu silencio.

Eu poderia ter ido para o medico, contudo achava também que todo esse silencio seria passageiro, que poderia ser o silencio preciso pra o barulho constante que eu vivia.

O Gabriel chega em casa, meu marido, da boa noite, coloca a maleta na poltrona, tira o terno e vai pegar o suco na geladeira, perguntando-me como eu estou.
É o que ele faz sempre que chega em casa. Olha-me de longe, sorri, vem em minha direção, ajoelha-se e me beija, chupa minha língua, puxa meus lábios, me cela, me cheira, sorri e vai buscar o Miguel na casa da avó, minha sogra Dinha.

Sento-me no sofá e percebo que não sinto mais gosto.

O som foi embora levando junto meu paladar.
Não senti nada, literalmente nada do beijo do Gabriel, e sem sentir me sinto perdida, mais desesperada do que estava, e na mesma energia negativa levanto-me e vou para a cozinha, abro a geladeira e começo a comer.

Tiro um grande pedaço, com a mão, da torta de chocolate e enfio na boca, sem sentir nada aumento meu desespero e saio enfiando o que tiver de comida garganta a baixo, com o intuito de minha língua voltar a ter fome. Suco, bolo, refrigerante, leite condensado... E depois de tudo do mais doce não adocicar nada, o ultimo suspiro de esperança abraçada com o desespero faz você tentar de tudo pra sentir novamente, e eu tentei, desesperei-me, enlouqueci... Pego a pimenta por inteira e jogo na boca, chupo, depois mordo, engulo e nada, e repito, varias vezes, ate que, feito uma mulher sem juízo, começo a jogar na boca tudo que encontro no caminho, vinagre, sal, óleo, e em desespero maior mordo carne crua, tomo água sanitária, vou ate o lixo, como o que encontro e termino minha patética e miserável cena no chão.
Sentada... Ao pé da lixeira, com as mãos sujas de comida e a boca melada de vergonha e desespero.
E ali fico, destruída, no meu silencio particular, na minha fome sem gosto, na minha solidão. A vontade de ir pro medico passa, tudo que quero, é chorar.
E choro.
Acabo-me.
Minhas lagrimas caem feito um corpo vazio pecaminoso sendo atirado de um abismo, e termina em meus lábios que se abrem para recebê-las, e de vez de salgada, sinto o amargo das minhas lagrimas, sinto a dor e a agonia de telas em minha boca, lavando meu mal, e meu não sentir.
Choro feito uma criança, choro mais e mais...
E choro mais um pouco......... ...... ... .
Ate não ter mais lagrimas pra derramar, e assim me calar, ainda ali, sentada ao pé da lixeira, esquecida por mim mesma, esquecida pelo som, pelo gosto, quase esquecida pela vida, pelo sentir...

Levanto-me, limpo toda a bagunça que minha inútil fome fez, tomo banho... Não... Melhor, moro no banho, demoro tanto que me sinto parte da água que deságua em minha pele, em minha alma, lavando-me por completa do cheiro de água sanitária, da vergonha, do vinagre, da metade do desespero... Coloco uma roupa, me perfumo e volto a deitar no sofá levando comigo o travesseiro de Gabriel, sempre gostei mais do dele do que o meu, acho que apenas pelo fato de ser dele.
Meia hora deitada e sinto-me faltar algo, mais depois de tantas perdas ao longo da noite, faltar algo mais não seria surpresa. E procurando o que me falta, acho... Acho a morte do cheiro. Não sinto o cheiro no travesseiro do perfume de Gabriel, sento-me e esfrego meu nariz na minha roupa, e sinto, apenas nada, nada do perfume que tinha acabado de colocar, e em silencio, deito-me novamente, calmamente, e desesperadamente começo a sorrir e a chorar, e sorrio de novo e paraliso no tempo, feito uma estátua. E ali fico
Sem som, sem gosto, sem cheiro. E assim, se fez o silencio, meu silencio particular a tudo silenciar.
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Dormindo de olhos abertos com medo de fecha-los e quando abrir já não ter mais nada em minha frente, percebo a porta se abrir, entra Gabriel com Miguel, meu filho. Ele entra corri, me abraça, beija-me o rosto e diz algo que não sei o que foi.
Não pude ouvir, e ele abraça-me novamente, porem seu cheiro também não posso sentir e por descuido deixo uma lagrima dos meus olhos cair. Ele enxuga e vai pro quarto. Sento-me no sofá, e olho encantadamente meu marido, meu amigo a tomar outra vez mais um copo de suco de graviola.
Da cozinha olha-me, entre eu e ele, ele avista o telefone fora do gancho, sai reclamando, faz cara de enfurecido,

                                                            Ele fica lindo quando ta com raiva. Continua e falar comigo, grita, grita em silencio, para mim, pra os outros em alto e bom som, sei que grita, pois o Miguel vai ate a sala vê o que esta acontecendo, ele com o dedo manda o Miguel voltar, e eu, no meu silencio so observo aquele jogo de ações e expressões. Gabriel deve estar reclamando da conta, deve estar dizendo que mesmo com contas altas pra pagar eu ainda esqueço o telefone fora do gancho.

Ele me olha de verdade, se cala enfurecido, se estressa por eu não lhe responder nada, e continuo assim, calada, imitando meus ouvidos. Ele volta a falar feito um velho resmungão. Depois de minutos vendo que eu me encontrava paralisada, do mesmo jeito que ele viu ao entrar... Ajoelha-se, fala em outra língua, pra mim é como se fosse sabe, pois, não entendo nada... Não ouço nada.
O Gabriel começando a ficar nervoso me segura os ombros, balançando-me, e continua a falar. O incrível é que mesmo com todo o silencio, vendo-o falar sem som, eu não consigo falar ao mesmo tempo em que ele, O deixando continuar falando sem cessar, mais nervoso ele fica e depois de minutos, ele cansa e se cala,

se cala por completo, escuto ate os seus pensamentos se calarem, ele se dá a mim por total, e em cima do silencio dele, junto com o meu, digo “estou surda... Não sinto gosto, nem mais o cheiro de nada, meu amor” e sem precisar repeti, e ele vendo verdade em toda parte do meu corpo, vejo o que não via a muito tempo, uma água chamada lagrima cair dos olhos do forte homem que a muito não chora.
E num silencio gritante ele me abraça, me aperta, me beija o rosto, o nariz, a boca os ouvidos, me olha profundamente, o sinto enxergar a minha alma. E calmamente ele articula a boca, dizendo que me ama. Fazendo assim a mesma água desaguar dos meus olhos, me sinto dele como a muito não sentia, choro no ombro como a muito não fazia, o amo calada, silenciada... Surda, sem gosto, e sem cheiro, porem amo, como nunca o tinha amado antes.

Roço meu rosto nele, a procura do seu cheiro que não vem,
Passo minha língua na dele a procura do gosto que não chega,
Esfrego meu ouvido na sua voz a procura do som que não entra.
E sem tentar mais nada, o olho e digo que desisto porem ele não desiste de mim, ele confia e acredita mais em mim do que eu poderia imaginar. Tenta me arrancar do sofá, porem o puxo fazendo-o deitar comigo, articulo para ele que depois vamos ao medico, porem que ali, naquele momento precisava de um tempo, um curto tempo do meu silencio sem gosto e cheiro pra poder descansar do impacto de tudo, ou melhor, do nada que a mim estava acontecendo. Apertamos-nos fazendo assim um corpo apenas, no sofá. Sinto ele chorar, chorar calado, pra eu não perceber já percebendo seu momento de fraqueza, a me acompanhar.

E ali adormecemos juntos, calmos, com meu corpo no dele sinto seu coração bater, me lembrando sempre que ele estava ali, batendo também em meu peito. E ali, dormindo, em minutos sinto-me sozinha no sofá, Gabriel cansado, sai do sofá, pega o Miguel, deixa rapidamente com a vizinha e feito uma criança sou colocada no colo, e levada ate o carro.
Sinto-me leve, a continuar feito um sonho me mover parada, não entendo porque não consigo abrir os olhos, sentada ao lado de Gabriel, no carro em movimento, toco nele e tento ‘’falar’’ porque não to conseguindo abrir os olhos, ele deve ter falado algo e se dando conta que estou surda mesmo, ele segura firme a minha mão, a leva ate minha face, guiando meu dedo a tocar levemente em meus olhos, fazendo-me perceber que eles se encontram abertos...

Meus olhos estavam abertos...

                                                  Abertos...
E eu, não via nada, só escuridão, escuridão essa que de onde eu não sei, chuta uma lagrima do canto dos meus olhos, olhos vazios, olhos secos, expulsando minha ultima lagrima, a lagrima de morte, de desistência, de falência da vontade de viver.

E ali, sentada, sem escutar nada...
                                                      ... Sem sentir o gosto de nada...
                                                                                                         ... Sem sentir o cheiro... E sem enxergar... Sinto-me só, vazia que nem meus olhos,
Porem sem desespero,
desespero quando se esta se sentindo morta, não existe mais,
Eu estava no purgatório, não sentia nada, preferia ta sofrendo no inferno, do que estar trancada dentro de mim mesma.
E ali, trancada, percebo o quanto sou... Nada.

Sinto o Gabriel me balançar, desesperado. Não sei se é mais difícil sentir todo esse nada de sentimento ou ver quem você mais ama, desligada na sua frente.
E ali, completamente sem expressar nenhuma reação, no meu silencio particular, literalmente desligada pra o mundo, só escuto a voz do meu pensamento, essa voz que fala... Que fala agora, dentro de mim... Voz estranha.
E no balançar do desespero de Gabriel, sussurro alto, “Estou cega... Morta por fora e sozinha por dentro”

E agora sem gosto, sem cheiro, sem barulho,
Vou apodrecendo feito fruta em lixo.
Me auto-envenenando enquanto sinto meu corpo ser usados por outros, entre entrar e sair de agulhas e o acariciar de Gabriel a se tatuar presente em minha não sentida vida.
E assim se fez o silencio
E assim se fez a triste solidão
Pois a partir daí, tudo que vivi foi só escuridão.


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